Introdução
O cannabis narcótico em sua apresentação para uso lúdico é quiçá, junto com o vinho, um dos produtos agrícolas mas complexos à hora de expressar sabores e aromas, bem como o resto de matizes sensoriais referentes à vista, o tato e inclusive o ouvido. Sabemos que outros produtos agrícolas e de gado, como o queijo ou o azeite de oliva, encontram-se regulados por diferentes organismos que decidem sobre denominações de origem ou sobre a qualidade de uma determinada colheita.
Estes organismos ou comitês reguladores se encarregam de qualificar a origem e certificar a qualidade dos produtos que lhes competen, garantindo que são e contêm o que dizem, bem como sua procedência. Para isso, um dos meios que se utilizam é a prova sensorial ou organoléptica, isto é, a prova do produto mediante os sentidos e a consiguiente identificação de matizes em cada um deles.
No entanto, e apesar de que o número de consumidores lúdicos de cannabis adultos e responsáveis cresce cada dia, resulta impossível criar nenhum tipo de organismo oficial ao respecto, dada sua ilegalidade. Ainda que o consumo privado não se encontra penado e é perfeitamente legal, existem uma série de matizes legais que impedem a criação de Clubs de Catadores de Cannabis abertamente já que ainda que há alguns em funcionamento, fazem-no em semiclandestinidad e sempre com a espada de Damócles da perseguição policial e judicial sobre eles.
Portanto, a dia de hoje não existe nenhuma associação, organismo ou comitê que se encarregue de categorizar as diferentes variedades de maconha, autóctones ou comerciais. Como conseqüência, também não se publicou nenhuma metodologia escrita que se encarregue de estabelecer ao menos umas normas básicas sobre como e em que condições se deveria realizar uma prova de cannabis narcótico.
Na atualidade proliferam as Copas Cannábicas em nosso país, onde se celebram ao longo de todo o ano por iniciativa das diferentes Associações de estudos sobre o cannabis que se repartem pelo território nacional. Também diferentes entidades privadas celebram seus eventos de competição e prova, mas em qualquer caso, nem os júris populares nem os especializados possuem uns critérios unificados nem um procedimento regular para realizar as diferentes provas às mostras apresentadas antes de ser consumidas. Também não em lugares com ampla tradição cannábica, como Holanda ou Canadá existe uma metodologia comum que permita avaliar em condições de igualdade as diferentes variedades cultivadas por diferentes produtores.
Nem sequer nos coffee shops ou nas grandes Copas se encontram catadores especializados que possam, por exemplo, desmascarar uma variedade copiada ou detectar se uma determinada mostra é de uma ou outra procedência.
É por tudo isto que depois de anos de exaustivo trabalho, o autor desta obra é da opinião de que o atual é um momento adequado para a publicação desta obra, na que se compendian diferentes metodologias para a prova de cannabis narcótico em diferentes vertentes e para diferentes fins. Em nenhum caso se pretende "sentar cátedra" e algumas das técnicas e conclusões que se exporão serão sem dúvida susceptíveis de revisão e melhora, para o que se proporcionará uma direção de correio eletrônico a modo de caixa postal de sugestões, na que os Leitores poderão deixar suas opiniões, tudo isso numa tentativa de estabelecer ao menos uns critérios básicos para poder realizar umas sessões de prova com um mínimo de entidade.
É nosso desejo que esta obra possa ser de utilidade e que, em última instância, suponha uma contribuição à importante tarefa de ampliar o conhecimento de nossa YERBA sempre com a premissa de que nosso objetivo não é outro que o de tentar acercar o prazer de degustar um bom cannabis narcótico a todos aqueles que desejem apreciá-lo melhor.
Generalidades sobre a Cata
Uma prova é a prática de prova de um determinado líquido, sólido ou gasoso. Dependendo do produto a provar, a determinação de matizes é mas ou menos complexa, mas podemos estabelecer diferentes sinônimos como degustação, análise organoléptico ou análise sensorial. Convém enfatizar que ainda que estes substantivos englobam o mesmo conceito deveríamos desde já realizar uma primeira distinção dependendo do objetivo da ação e sua transcendência, de maneira que prova e degustação se referem mas bem à avaliação de cannabis em concursos ou avaliação de catadores, enquanto análise sensorial e organoléptico estão mas relacionados com a floreciente ciência cannábica.
O vocábulo "prova" prove do castelhano antigo e significa olhar e procurar. Já no Cantar do Mio Cid se referência:
V 121 " ? que non as catedes entoda aqueste ano".
V 164 " ? que se antes as catassen quefossen perjurado".
V 3126 " ? Não ¡podem provar de vergonha, fantes de Carrión!".
No entanto, o cannabis narcótico possui uma característica especial e única que o diferencia de qualquer outro produto susceptível de ser prova: seu efeito psicoactivo. A partir de seu interactuación com o sistema endocannabinoide humano e seus receptores CB1 e CB2 se produzem certas alterações dos processos mentais ao mesmo tempo em que afetam a determinados processos fisiológicos como o apetite ou a dor. Isto provoca que seu tratamento seja absolutamente diferente neste aspecto, pelo que nesta obra se fará uma clara diferenciação entre "Cata organoléptica" e "Prova psicoactiva", abordando cada uma delas por separado mas ressaltando seus pontos comuns.
Em cada entrega da série se contribuirá a ficha de prova de uma variedade dada realizada por uma equipe de prova integrado por cinco pessoas que colaboraram nesta série, na que se especificarão as notas de prova organoléptica, psicoactiva e medicinal.
Para que é a Maconha?
Da mesma maneira que o vinho é para ser bebido, o cannabis narcótico fundamentalmente existe para ser fumado, mas por outra parte, em ambientes mas técnicos ou inclusive médicos o usual é estabelecer uma prioridade que antepõe a atividade analítica de laboratório à prática do consumo e assim se dá o caso de que o técnico ou analista costuma dar mais importância aos dados que às sensações. A maconha é um produto de uma longa tradição que encontra seu sentido ao ser consumido em companhia, socialmente, ou bem na intimidade na busca de novas sensações e autoconhecimento. Sob esta perspectiva, poderíamos posicionar a prova num degrau inferior e a análise ainda por embaixo. Desta forma concluímos que a análise do cannabis narcótico deve complementar o campo técnico onde não chega a prova. AO longo da série nos ocuparemos também desta questão, cunhando um novo termo: a "cannalogía", com um significado análogo ao da enologia ou estudo do vinho
Como é óbvio, um nível alto de cultura cannalógica supõe amplos conhecimentos do cannabis narcótico através da prova. Mas ainda que chegar a esta conclusão é singelo, não o é tanto conhecer se a atividade cannalógica supõe cultura cannalógica. Sob nosso ponto de vista, é claro que não, ao menos a nível de cannalógía tradicional ou artesana. Por exemplo, ao estar falando de necessidades de consumo dentro do área de influência do cannabis narcótico como produto em nossa civilização, o fato implica saber eleger, e para isso é necessário um nível cultural cannalógico amplo. No entanto, também podemos pôr o exemplo de uma pequena localidade do Sul de Índia, que leva séculos convivendo com a planta e tem seu autoconsumo satisfeito. Aí se encontra o "quid" da questão, pois se for o caso, a abundância de produto faz que pareça não ser necessário saber mais sobre ele.
Cesto produz um curioso efeito e é que as zonas com um melhor clima para a produção de cannabis narcótico e cujos governos são mas ou menos permissivos com seu cultivo possuem menos cultura cannalógica, sendo esta muito mas ampla em países de climas prejudiciais para a cannabicultura ou nos que seu cultivo se encontra perseguido pela lei. Por exemplo, conseguir cannabis em Dinamarca ou Finlândia é certamente complicado e a valoração que se faz do produto é altíssima por sua escassez e a periculosidade de seu comércio, ao ser um país não produtor. Dados pois estes dois fatores, consumo e cultura, e por pura necessidade seletiva, os países não produtores têm uma maior cultura cannalógica e um sintoma é uma maior tendência à avaliação por prova. Como índice atual desta separação entre tradição e cultura cannalógica, pode ver-se como em diferentes reportagens e películas se mostram cenas nas que os consumidores de cannabis vêem malograda sua imagem e situação social, o que é incompreensível para um "saddhu", ou um monge tibetano, por exemplo. Em base a tudo o anterior podemos definir diferentes tipos de prova atendendo ao fim procurado:
Avaliação - Valoração simples a nível sensorial e/ou psicoactivo
Pureza - Para detectar a presença de inseticidas, agentes patogênicos e/ou excessos de nutrientes na colheita
Origem - Para determinar:
a)
Zona de origem
b)
Tipo de cultivo e nutrição
c)
Linhas integrantes do híbrido
d)
Secado e Curado
Seguimento - Para conhecer a estabilidade ou degradação do produto já curado ao longo do tempo
Predição - Para poder antecipar a evolução de uma variedade no secado e curado.
Cientista - Para o apoio de investigações e ensaios cannalógicos a nível médico ou com outros fins.
La Cata Cannábica e o Comércio
Como todos sabemos, em princípio, qualquer fim que se lhe dê ao cannabis narcótico obtido de uma colheita que não seja o autoconsumo privado, é ilegal. No entanto, é precisamente neste âmbito no que se poderia estabelecer um marco no que desenvolver um programa de prova.
Por causa desta ilegalidade, encontramo-nos com que não existe um comércio normalizado do produto, que sim é habitual em outros. Por exemplo, nos produtos alimentícios, øprova-a costuma ser um dos argumentos principais à hora de seu funcionamento e permanência no mercado de seu setor, como pode ser o vinho, o queijo, o azeita de oliva ou o presunto serrano. No mundo da cannabicultura, dependendo da experiência e o meio, o usuário costuma antepor as propriedades psicoactivas às organolépticas sem perceber que é um conjunto global integrado de todo o processo de consumo, desde o ato de desfazer uma sumidad florar entre os dedos até a exhalación a fumaça e sua posterior análise olfativo e visual, o que produz um efeito psicoactivo redondo e pleno em seu conceito.
Nos últimos anos, depois da aparição das lojas de cultivo especializadas, a imprensa do setor e o funcionamento e iniciativa de ao algumas associações de estudos sobre o cannabis, promoveram um notável aumento na cultura cannalógica em nosso país, motivado também em parte pela facilidade de deslocamento até Holanda, único país do mundo no que o comércio e consumo público de cannabis é legal dentro dos coffeeshops. Nestes locais podemos encontrar uma carta ou menu com diferentes variedades comerciais de cannabis narcótico e usualmente costumam manter sua denominação, como AK-47 ou Bubble Gum. Esta situação permitiu a multidão de pessoas comprovar como a mesma variedade (de nome) pode ter diferentes características dependendo de como foi cultivada, secada ou curada.
Se trata pois de estabelecer uns cânones pelos que poder reconhecer realmente uma variedade se falamos de linhas puras, ou ao menos seus componentes no caso de híbridos, pois afinal de contas, o usuário demanda basicamente uma variedade por sua prova anterior. Esta forma de trabalho seria a normal e permitiria ajustes de qualidade por preço e comércio, se este fora legal. No entanto, até o dia de hoje, o comércio de sementes de cannabis se que continua sendo legal, de maneira que o cannabicultor, já seja novato ou experiente, tem a possibilidade de crescer uma variedade que tenha provado anteriormente.
A forma que têm os produtores de sementes de dar a conhecer suas variedades de forma geral costuma ser através dos eventos denominados "copas cannábicas" ou "cannabis cup" nos que os participantes contribuem suas variedades e recebem mostras dos dos demais, de maneira que podem experimentar o cultivado por outros cannabicultores e realizar uma valoração simples que costuma ser uma nota numérica em aspectos como a presença, aroma, sabor e potência. Em alguns casos também intervém um júri mas ou menos "especializado", ainda que realmente não se segue nenhum tipo de metodolgía unificada para a avaliação das mostras.
No entanto, este método de informação ao consumidor é susceptível de ser prostituído ao utilizar a prova como instrumento para estabelecer categorias de qualidade com posteriores e importantes campanhas publicitárias, rompendo o sistema de qualificação ramificado e induzindo ao consumidor em determinado sentido. Este sistema das Copas Cannábicas poderia ser eficaz se fora honesta em todos os casos, mas tais sistemas de informação e de concessão de copas, placas e medalhas costuma estar vinculado ao comércio de sementes de cannabis, dando como resultado que em muitos casos a prova tenha sido argumentada por alguém que é "juiz e parte".
Por tudo o anterior e para concluir este capítulo, cremos que aqueles cannabicultores que produzem material de alta qualidade têm de tentar ser experientes valoradores de seu esforço e não permitir em nenhum caso que somente seja avaliado por sistemas de casualidade ou sorte subjetiva. Ao mesmo tempo aquele que analisa o cannabis, se paralelamente realiza seu prova, poderá constituir-se no mais qualificado catador ao contar com a vantagem de poder relacionar dados com sensações.
Luis Hidalgo